Artigo de Fábio Euksuzian para a Revista Vegetarianos

Memórias a não extinção de experiências passadas

O aforismo acima corresponde a uma citação do sábio Srí Maharaj Patáñjali, provavelmente datado do século III a.C. e publicado no Yôga Sútra, opúsculo de sua autoria composto por 195 sútras, aforismos carregados de significados herméticos que, condensados em poucas palavras, tornam-se blindados aos olhos de um leigo, e por isso mesmo, se faz necessário um mínimo de bagagem metafísica para a compreensão desta ancestral linguagem cifrada.

 A sentença do título faz parte do primeiro capítulo da obra, que explica o caminho para se atingir a iluminação, no Yôga chamado de samádhi. O sútra VI descreve os cinco tipos de instabilidade, sendo um deles, o conhecimento baseado na memória. Quando li este livro pela primeira vez, há cerca de uma década, confesso que não entendi por que a memória seria um obstáculo instável à evolução do ser humano, visto que sem ela provavelmente não estaríamos aqui, afinal, em um passado remoto, nossos ancestrais aprenderam pela observação e memorizaram lições de sobrevivência, como por exemplo: fazer fogo, construir cabanas, plantar e, praticamente tudo que envolvia e envolve o desenvolvimento de uma civilização.

Vejamos as crianças: não são espelhos dos pais porque memorizam tudo o que eles fazem? Assim como os meus alunos são reflexos de mim, pois assimilam gestos, ações e atitudes do professor. Por exemplo, se nós não tivéssemos memória, como estaria eu escrevendo este artigo?

Conto aqui uma história que presenciei em um Festival Internacional de Yôga, reforçando a retórica da importância da memória: um grupo de alunos e instrutores estava encaminhando-se para alguma vivência que estava prestes a acontecer. Ao passar pelo estacionamento, vimos um passarinho aproximar-se do espelho retrovisor de um carro. Ao avistar seu próprio reflexo, achou que se tratava de outro pássaro querendo invadir seu território e a partir de então, iniciou uma guerra contra o espelho. Por vezes se chocava contra ele e em outras, bicava-o insistentemente. Obviamente se machucou e tão logo percebeu que não era outro pássaro, deu meia-volta no ar como se fosse embora, mas, em seguida, novamente se viu no espelho, repetindo todo o processo. Mestre DeRose, que acompanhou aquela pitoresca cena que não durou mais que alguns segundos, disse aos que estavam presentes: “Assim somos nós, presos dentro de nossos paradigmas”, bem, dizem por aí que passarinho possui memória de três segundos…

No entanto, a dualidade que existe em praticamente tudo também está presente na memória como ferramenta de evolução. Ela é fator gerador de outro obstáculo apontado por Pátañjali no capítulo II (trilha da prática), sútra III: o excessivo apego à vida. Em minha opinião, este apego não esconde somente o temor da morte, mas também o receio de perder as sensações de todas as experiências vividas dentro da experiência a que chamamos de vida. Por meio da memória, nos apegamos àquilo que já não existe mais, mas tão somente nas vagas brumas nostálgicas de nossas carcomidas lembranças. Será que é por isso que hoje temos o sucesso das linhas retrós em variados tipos de publicidade, relançamentos de filmes, peças de teatro que um dia foram boas, o assustador popularismo do botox e tudo o mais que nos fará tentar vivenciar algo que as primaveras levaram? Já tentou reatar um namoro anos depois, quando já não mais sentia grande coisa pelo outro, mas porque em algum dia do já amarelado tempo de sua memória, aquilo foi muito bom e lhe proporcionou prazer pelos momentos felizes vividos juntos? Pois é, é como reconstruir um vaso quebrado, nunca mais será o mesmo! Creio que seja por isso que quando envelhecemos vamos perdendo a memória, talvez seja uma forma de a natureza nos poupar o sofrimento da lembrança, uma forma de nos desapegarmos daquilo que um dia fomos e nunca mais seremos. A memória nos traga para túneis tingidos de sépia que nos conduzem a um passeio no trem das saudades, por vezes felizes, outras nem tanto, mas sempre saudades.

“Hoje joguei tanta coisa fora, cartas e fotografias, gente que foi embora…”, foi com este refrão dos velhos Paralamas na cabeça que recentemente fiz minha mudança de residência em Sampa. Ah, nossa castigada memória emocional ainda nos faz palpitar o coração. Quantas coisas temos que deixar para trás, a descansar em algum acinzentado banco de praça, até serem desintegradas lentamente pelas ventanias das novas gerações. Caetano diria que saudades até que é bom, melhor que caminhar vazio… E eu digo sempre, que devemos aprender com o passado, sem se apegar a ele, aplicar o que aprendemos nos fundos do presente e prepararmo-nos para a colheita de um futuro próspero. Mas se a memória causa este sofrimento, o que fazer? Ser um desmemoriado? Mais uma vez, temos que aprender a canalizar a situação em nosso favor, ou seja, emancipação da escravidão mental. Recentemente, estava com um grande amigo que perdera a mãe e a irmã de câncer em um ridículo intervalo de quatro anos, em um café de calçada qualquer da cidade de São Paulo, e ele, ainda meio atônito, balbuciou: a vida é um ato de heroísmo! Achei aquilo muito bonito e completei: cara, já se deu conta de que nossas vidas se resumem agora a este exato e absoluto instante? Tudo o que fomos, vivenciamos, sentimos, experimentamos, conhecemos, não fazem a mínima importância nesta fração congelada do tempo. Nossas vidas são exatamente isso que neste momento enxergamos e sentimos, eu e você; nunca houve o amanhã ou o ontem. Tudo o que chamamos de passado e projeções de futuro se assemelham a desconexos flashs de um alternativo filme B, meio sem pé nem cabeça, encontrados na mais profunda penumbra do sótão de uma casa com sete janelas. Ele consentiu com um leve movimento de cabeça.

Por intermédio da memória, ficamos presos em nossos próprios paradigmas e atrelados a um passado que por vezes temos a esquisita impressão que não aconteceu, como dizia Cazuza em sua sutil e letal poesia: parece que aquele amor que tive e senti um dia, quando o reencontro, nunca existiu. Mas nem tudo são espinhos, eis um dos lados bons da memória: aqueles que degustam covardemente um pedaço de músculo, coração ou fígado que até há instantes pulsava vida e energia haverão de se lembrar que foram cúmplices de incontáveis assassinatos ao longo do que chamaram de vida e esperarão pacientemente à sentença final dos juízes do karma absoluto, afinal, não somos somente nós que temos memória.

 

Artigo publicado no dia 18/3/2009, na página 56.

 

Por Fábio Euksuzian

fabio.euk@uni-yoga.org

 

Fábio Euksuzian é membro da Conselho Administrativo da Uni-Yôga, instrutor de Swásthya Yôga e diretor da

Unidade Vila Olímpia, filiada à Uni-Yôga.

 

Mais informações:

www.universoyoga.org.br

Tel.: 11  3845 5933.

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