Blog Caminho das Índias do Instrutor de SwáSthya Yôga André Mafra entrevista DeRose

Blog Caminho das Índias (http://mafrayoga.wordpress.com/) entrevista DeRose

O educador DeRose concedeu um entrevista ao Blog Caminho das Índias, reproduzo aqui a entrevista na íntegra.

Comendador DeRose, por quantos anos o senhor viajou a Índia?

Viajei anualmente para a Índia durante vinte e quatro anos.

A trama inicial da novela Caminho das Índias tem tratado muito sobre o papel da mulher na sociedade indiana, relacionamento entre castas, etc. Como o senhor enxerga isso?

A sociedade indiana é composta por hindus, mulçumanos, budistas, jainas, sikhs, parsis e mais uma quantidade de segmentos culturais. E em cada um deles há diferenças abissais na atuação da mulher em relações aos outros grupos étnicos e religiosos. De qualquer forma, observando de forma geral, a mulher indiana é mais produtiva dos que as mulheres da maior parte dos países. Ela não apenas fica em casa cuidando dos filhos, mas vai para o campo, pega na enxada e no arado, planta, colhe, carrega água, ajuda a construir casas. Sua influência em boa parte da sociedade indiana é influência pela civilização do Vale do Indo, que era matriarcal e deixou marcas profundas nas várias culturas que foram se estabelecendo no país durante os últimos 3500 anos.

Conte-nos um pouco da sua experiência nesse maravilhoso país.

São tantas as experiências que teríamos de fazer uma série só sobre esta pergunta. A Índia tem a melhor culinária do planeta. Tem paisagens lindíssimas, dos desertos às montanhas geladas dos Himalayas, passando por rios caudalosos. Tem templos magníficos de todas as épocas e de uma multiplicidade de religiões. Tem o Taj Mahal, as pinturas nas cavernas de Ajanta, as esculturas de Khajuraho. Tem o respeito pelos animais e a maioria da população não mata para comer. São tantos sons, tantas cores, tantos odores, tantas línguas, tanta cultura milenar que tornar-se indescritível neste pouco espaço. Mas descrevo tudo no meu livro A caminho das Índias, que relata 24 anos de viagens àquele país meio mágico.

Como o senhor vê a questão das castas? Explique-nos um pouco sobre o assunto.

Por um lado:

Na Índia, as castas só existem assumidamente no hinduísmo. A instituição das castas não está presente nas demais religiões, como o islamismo, o budismo etc. No hinduísmo, existem quatro castas principais que são brahmins, kshátriyas, vaishyas e súdras. Estas quatro subdividem-se em um número incalculável de sub-castas. Fora e abaixo das castas estão os intocáveis. Desde tempos imemoriais essa estrutura mantém uma razoável harmonia na sociedade hindu. No entanto, graças a Gandhi e com o passar dos anos, elas se tornaram mais flexíveis e temos visto mais casamentos intercastas e até mesmo intocáveis ganhando dinheiro e galgando postos políticos importantes, o que antes não era possível.

Por outro lado:

O tema das castas sempre despertou a curiosidade dos ocidentais, mas não compreendo a razão, já que no mundo ocidental também há a divisão da sociedade em castas. É uma tragédia quando um rapaz de casta inferior aqui do Brasil resolve se casar com uma jovem de nível superior ao dele. Sempre ocorreram até suicídios e assassinatos por esse motivo. Quando um jovem de casta baixa quer ascender socialmente, ele é brutalmente impedido. Se nasceu em um ambiente cultural humilde, a classe média o exclui. Se nasceu na classe média, é rejeitado pela classe alta. Dependendo do dialeto-de-casta da língua portuguesa que ele utilize, será aceito no nosso país para um cargo de menor ou maior importância, baseado apenas na sua linguagem. Isto está certo ou errado? Não me considero com direito de julgar, já que eu não ficaria bem impressionado com um  estabelecimento que colocasse para atendimento ao público um funcionário que falasse português errado. Portanto, tanto na Índia quanto no Brasil e no mundo todo, a sociedade humana é dividida em castas. Só que a maior parte não assume. Como dizia George Orwell: “Todos os Homens são iguais, só que uns são mais iguais do que outros.”

Como o senhor vê a questão dos relacionamentos afetivos na Índia?

Certa vez, em 1980, em Delhi, conversando com uma senhora amiga nossa, consultei-a sobre o casamento tradicional indiano que é em grande parte decidido pelas famílias e não pelos jovens que irão se casar. Às vezes, os jovens só vêm a se conhecer depois que as famílias decidem o enlace. A resposta que ela me deu foi digna de um tratado sobre relacionamento afetivo. No sistema ocidental, o casamento é baseado na paixão, que começa em um ápice e vai declinando com o tempo até fenecer. Por isso, o casamento ocidental, em geral, tem por estrutura natural a decadência e o deterioramento da relação. Ela começa por cima e, geralmente, só tem um caminho a seguir: para baixo. Vai piorando sempre. Já o sistema indiano, começa por baixo, com duas pessoas que se  aceitam pelo respeito aos pais e à tradição. A convivência gera o companheirismo, familiarização, a intimidade, o carinho e finalmente o amor. Portanto, o caminho natural desse tipo de casamento é para cima. Ele vai melhorando sempre. Por isso, as separações conjugais na Índia não são tão comuns quanto no ocidente.

Preciso concordar em certa medida com ela expôs, porque o meu casamento é um pouco assim, primeiro ficamos amigos. Aprendemos a nos respeitar e admirar reciprocamente. Pouco a pouco foi-se instalando um companheirismo, uma cumplicidade perante os ideais de vida, a filosofia, a profissão. Anos mais tarde descobrimos que havia algo muito mais profundo e muito mais forte que nos unia de forma natural e duradoura.

Que cuidados devem ser tomados para visitarmos a Índia?

Primeiramente, os mesmo cuidados que tomamos ao viajar para lugares distantes que, naturalmente, têm outros micro-organismos na água e nos alimentos. Por isso, considero importante alimentar-se com a culinária da terra que estiver visitando. Em 24 anos de Índia, nunca fiquei doente. Atribuo isso a duas coisas: sempre aceitei a gastronomia indiana das cidades que visitava, a qual, sempre digo, é deliciosa; e só bebia água levada de São Paulo em embalagens com garrafinhas de meio litro, suficientes para todo o percurso. De resto, muito massala chai! Em caso de emergência, era sempre preferível tomar refrigerantes, cujo PH e a presença do CO2 impedem a proliferação da maioria dos micro-organismos. Há uma grande quantidade de dicas que recomendo no meu livro já citado A caminho das Índias.

Que ilusões devemos apagar sobre a Índia?

É preciso recordar-se de que está viajando para um país de cultura diferente da sua, que precisa ser respeitada, mas que não tem quase nada a ver com os devaneios que os ocidentais alimentam sobre a Índia. Por exemplo, achamos que os indianos em geral entendem de Yôga ou de sânscrito. Seria o mesmo que um europeu esperar que todos os brasileiros entendessem de capoeira e de latim.

Então como são os indianos?

Os hindus são muito simpáticos, sorridentes e prestativos. Os Sikhs são garbosos, altivos, orgulhosos (no bom sentido). Com os demais grupos religiosos ou étnicos eu não convivi muito, portanto não posso emitir opinião. O importante é não generalizarmos chamando a todos simplesmente de indianos. Seria o mesmo que chamar a todos genericamente de brasileiros. Como são os brasileiros? O gaúcho é de uma cultura, o paulista, de outra. O carioca é de um jeito, o cearense, de outro. E por aí vai. Na Índia é igual. Aliás, há muito mais similaridades entre Brasil e Índia do que as pessoas pensam.

O que mais marcou nas suas muitas viagens?

O Himálaya e o Ganges na cidade de Rishikêsh. As montanhas, os templos, os aromas, os mantras dos mosteiros, o chai maravilhoso, bem diferente do que se encontra no ocidente, idêntico ao que fazemos a décadas na Universidade de Yôga. A gastronomia que me ensinou o que é comida com paladar e com uma constelação de condimentos. A disciplina dos ashráms e as longas conversas com os swámis e com os saddhus, herdeiros de uma filosofia milenar.

O que mais o surpreendeu e o que mais te decepcionou?

Na minha primeira viagem, o que mais me surpreendeu foi logo no segundo dia de aulas, eu ainda bem jovem, no Sivánanda ashrám ter sido convidado para ministrar uma prática. Surpreendeu-me que nós tivéssemos aqui uma excelência técnica em Yôga que, hoje eu sei, é uma das melhores do mundo.

Decepcionou-me que praticamente tudo o que nós imaginamos que a Índia seja, ela não é. E vice-versa. A Índia é uma porção de coisas que nós nem imaginamos e que são impossíveis de descrever em uma entrevista. Prefiro remeter o leitor ao meu blog (www.uni-yoga.org/blogdoderose) no qual constam textos mais longos sobre a Índia, bem como um vídeo colocado pela Profa. Rosana Ortega. Também aproveito para recomendar o DVD “Índia Exótica”, do meu amigo Arthur Veríssimo. As datas e locais de lançamento estão lá no nosso blog.

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