Artigo do Instrutor Fábio Euksuzian que está nas bancas, publicado pelas revistas Vegetarianos e Leaders

Ao içar as pessoas ao patamar de consciência, o Yôga incita, dentro delas, o impulso de Eros, aquela chama de vida que estava esquecida em algum ermo local dentro de seus corações.

 

 

Auto-mobilização

 

Não importa se o que podemos fazer é pouco ou de ínfima efetividade diante do infindável buraco negro no qual nossa sociedade se encontra; sempre terá sido de valentia valia, sobretudo se cada um fizer a sua parte.

 

Esta semana estive pensando em como os “autos” estão na moda; até o Yôga que ensino se chama SwáSthya, termo sânscrito que significa auto-suficiência. Ligo a televisão e encontro dezenas de programas discorrendo sobre autosustentabilidade. Leio entrevistas com esportistas e… auto-superação é o ó do borógódó; banqueiros falam em autocontrole; e eu mesmo corro atrás de auto-conhecimento. No entanto, gostaria de pedir um minuto de silêncio ou de interrupção da leitura para os 800 auto-móveis que invadem o Estado de São Paulo diariamente, nos fazendo crer que sejam um mal necessário, uma vez que não temos uma decente e segura malha de metrô que corte a cidade de cabo a rabo – como em Paris ou Nova York, as quais, diga-se de passagem, não têm o tamanho nem o contingente da megalópole paulistana. Fazendo uso dos neurônios, creio que a disseminação dos “autos” acontece por duas razões: embora a globalização tenha chegado para ficar, com toda essa parafernália tecnológica estamos cada vez mais auto-sustentáveis, presumindo que podemos viver em uma bolha de isolamento sensorial. Não obstante, em contrapartida, vejo a compreensão por parte das pessoas de que não podemos mais esperar para que as coisas sejam feitas ou modificadas. Em outras palavras, nós mesmos temos de tomar a direção dos fatos, pois, pelo visto e pela espera, ninguém fará por nós. Fernando Pessoa escreveu, certa feita: “Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia vou construir um castelo”. O que quero dizer é que não importa se o que podemos fazer é pouco ou de ínfima efetividade diante do infindável buraco negro no qual nossa sociedade se encontra: sempre terá sido de valentia valia, sobretudo se cada um fizer a sua parte.

Certa vez, uma floresta estava em chamas e a fauna toda saiu em disparada. O leão avistou um pássaro, em seu esforço sobre-animal, indo e vindo com um balde cheio d’água em seu bico. O leão chamou a atenção dos outros animais para o fato e todos gargalharam da ave. Lá de cima, ela bradou: “Pelo menos estou fazendo a minha parte!”

Microcosmos devem auxiliar o macro. Paremos de esperar auxílio de divindades ou de papai universo e mamãe natureza; das pequenas, faremos as grandes. As tentativas dos governantes parecem não ser suficientes, autênticas ou realistas. A sociedade está se mobilizando para cuidar de algo que é nosso, as leis dos homens e os recursos naturais. As mais eficientes mudanças são aquelas que partem de nosso interior, pois, além de terem sido criações nossas (e por isso mesmo), há uma grande probabilidade de terem sido necessidades que encontramos no meio do caminho. Portanto, acreditamos nelas e isso faz toda a diferença. Tudo na natureza segue seu curso irrefreadamente.

Há uma troca contínua, um círculo virtuoso, ação e reação, dar e receber, ir e vir, nascer e morrer, desenvolver-se e transformar-se… Essa percepção é de maciça importância para nossa relação com a natureza e com nossas próprias vidas. Não podemos só sugar, extrair sem devolver as possibilidades de seu renascimento; é uma via de mão dupla. Muitas vezes, parecemos aquele adolescente mimado que só quer ser sustentado e nada dá em troca. Sustente-se, meu amigo, pare de ser sustentado. Há tempos que, em minha opinião, ser elegante (em todos os sentidos) é ser consciente. Grande parte das pessoas ainda dorme o sono da ignorância, absorta em sua flácida inconsciência, não depara com tudo o que está a sua volta. Ao içar as pessoas ao patamar de consciência, o yôga incita, dentro delas, o impulso de Eros, aquela chama de vida que estava esquecida em algum ermo local dentro de seus corações. Renasce o impulso para a curiosidade e a busca pela própria essência. Inicia-se um questionamento de tudo que se encontra ao redor. Platão já dizia que “uma vida não questionada não merece ser vivida”. Ao seguir seu instinto pelo saber, sua consciência se expande em todas as direções, aumentando o grau de exigência e, quase que paradoxalmente, de tolerância com relação a tudo e a todos, pois além de reeditar a seleção em sua existência, também sente a necessidade de orientar aqueles que necessitam, pois começa a perceber que, quanto mais aprende, mais sente o quanto não sabe.

 

 Esse incremento de consciência, se estende ao ser, ao saber e até ao vestir. Entende-se que aquilo que se veste é também conseqüência de seus atos e uma extensão de quem você realmente é. Antigamente, desfilar coberto com casacos de peles de animais era considerado chique e motivo de status. Talvez por desconhecimento ou por desinteresse da grande massa em saber como aquelas peles eram obtidas. Hoje, considera-se extremamente deselegante e de calibrado mau gosto fazer uso delas. E lavar carros em frente de casa? Recordo-me que, quando criança, lavar carro aos domingos na calçada de casa era sinal de descontração prazerosa, socialização com os vizinhos, cuidado com seus pertences – para alguns, até mesmo sinal de higiene.

Atualmente, deixar a mangueira correndo solta é puro sinal de desconexão com o momento presente, é reacender aquele velho chavão de que nós, dentro de nosso egoísmo e falta de senso de perspectiva a longo prazo, não enxergamos além do próprio umbigo. É o retorno daquele tacanho pensamento de que “alguém resolverá, os outros darão um jeito…” Só que nos esquecemos de que os outros somos nós mesmos.

 

Fábio Euksuzian é instrutor de Swásthya Yôga e presidente da Associação dos Profissionais de Yôga da Vila Olímpia (SP) • vilaolimpia.sp@uni-yoga.org.br

 

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